Pode ser um Fado, um chamamento de Muezin, um lamento de escravo, súplica dum condenado, uma voz apaixonada desejosa de instantes ou grito de um cante escrito do outro lado do canto.
Sou um português da Ibéria oriunda dos mares, rica e profunda, sozinha e grande como o oceano que a fez.
Aqui há cantigas minhas e d’outros que fazem com que a alma em nós não caiba.
Assim num canto vivo e revelado
Vos ofereço:
“Alma só está bem onde não cabe”
E não cabe em parte nenhuma, porque quer voar para a casa deserta de passos, está em toda a parte e é igualmente passageira como a direção da sua caminhada.
Há neste caminho meu uma espécie de contentamento consciente de que não me posso resumir a uma só coisa, a uma só intenção, a uma só vontade.
Preciso cantar o sonho, a beleza, a miséria dourada que me pertence, as aparições do amor em toda a música em toda a suprema poesia.
Espero que se comovam e alegrem com este bocado de mim que vos dou com todo o coração.
Disse o poeta Raul de Carvalho:
…'Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmônio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe"'